Análise | O Brasileirão não combina com homofobia

Os clubes podem ser punidos em casos de gritos homofóbicos entoados durante as partidas

Cadeiras do Mineirão com as cores da bandeira LGBT. (Foto: Pedro Vilela/Divulgação Mineirão)

Os tempos mudaram. Se anteriormente era “normal” que em estádios de futebol a torcida utilizasse xingamentos como “viado” ou “bicha”, no intuito de provocar ou mesmo ofender o adversário, atualmente não é mais possível tolerar esse tipo de comportamento. Aliás, nunca deveria ter sido.

Na 16ª rodada do Campeonato Brasileiro Série A, realizada nesse domingo, 25, uma cena que tem sido “comum” em partidas de futebol teve um desfecho diferente, que pode ser o pontapé para a luta contra a homofobia no futebol.

No jogo entre Vasco e São Paulo, em São Januário, no Rio de Janeiro, o árbitro Anderson Daronco paralisou a partida após os torcedores do time da casa entoarem cantos homofóbicos. O homem do apito foi até o banco de reservas e disse que este tipo de comportamento não era permitido. Logo, o técnico do clube, Vanderlei Luxemburgo, pediu para que os torcedores parassem com a ofensas, o que foi atendido.

Para alguns pode parecer pouco, mas esse foi um passo importante para que a homofobia deixe de ser comum nos estádios e passe a ser vista com o desprezo que merece. A decisão acertada do árbitro vem após recomendação da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e atualizações nas leis de homofobia e transfobia no Brasil. Maioria do supremo Tribunal Federal (STF) decidiu enquadrar este preconceito ao crime de racismo, até que o Congresso Nacional legisle sobre o tema.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) determinou que os clubes poderão ser punidos com perda de pontos em casos de gritos homofóbicos entoados durante as partidas. Esse rigor na legislação se faz necessário para que exista mecanismos capazes de coibir essas práticas.

O futebol por vezes foi sustentado como um esporte para homens heteros, em que não havia espaço para mulheres ou a comunidade LGBTQ+. Os estádios são ambientes hostis para essas pessoas, visto que casos de homofobia e machismo ainda hoje são registrados.

Isso no mínimo sugere uma contradição imensa, já que o futebol é um esporte agregador, capaz de transformar vidas. Alguma vez você já deve ter ouvido a frase “nunca será só futebol”. Isso é verdade. A prática talvez seja uma das poucas no mundo capazes de juntar uma diversidade tão grande de pessoas torcendo por um mesmo propósito.

As pessoas que fazem esse esporte tão fascinante precisam entender, urgentemente, que o futebol é lugar para todos, independente de sua origem, religião, orientação sexual ou classe.

Essa sensibilização tem de passar, principalmente, pela conscientização dos clubes perante os seus torcedores, o que hoje já acontece, mesmo que de forma tímida. No Dia Internacional de Combate à LGBTFobia, celebrado em 17 de maio, pelo menos 19 times utilizaram as suas redes sociais para se pronunciar em apoio a causa. São eles: o Bahia, um dos mais engajados do País nas causas sociais, além de Santos, Grêmio, América-MG, Náutico, Sport, Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo-PB, Bangu-RJ, Flamengo, Santa Cruz, Paysandu, Figueirense, ABC, Remo e Botafogo. No Ceará, apenas o Fortaleza, depois de muita peleja da torcida, aderiu à campanha.

Isso pode parecer pouco, mas há alguns anos era inimaginável que os clubes tivessem essa postura. Aqueles que fazem a gestão destas instituições precisam compreender que estas também devem cumprir um papel social. Usar o seu engajamento para algo além do departamento profissional de futebol.

As agremiações precisam aderir a causa, até pelo respeito daqueles que torcem, vibram e a apoiam, mas não se sentem abraçados pelo clube. Isso não trata-se de questões políticas, de esquerda ou direta, muito menos da intenção de “lacrar”. Trata-se de uma questão humana em tornar o ambiente do futebol acolhedor para todos.

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